Uma ação silenciosa da Renner

Demorei um pouco para fazer o post de hoje, porque que achei que em algum momento eu teria mais dados para trabalhar. Mas a verdade é que eu nunca ouvi ninguém falando sobre esse assunto e cansei ficar esperando.

Há cerca de quatro meses eu notei uma nova loja no shopping Boulevard Tatuapé: uma tal de Blue Steel. Fiquei pensando no nome, que me era familiar, até que me lembrei de que era assim que se chama uma das submarcas da Renner. Corri para conferir que loja cara-de-pau era aquela, pegando onda no nome de uma marca já existente e consolidada. O que é isso, né minha gente!?

Print do Site da marca. Muderrno, não? - http://www.bluesteel.com.br/

Cheguei lá e olha só a surpresa. A loja é uma espécie de mini-Renner – ou uma sessão da Blue Steel gigante. Logo percebi que se tratava da mesma empresa, pela organização do espaço, semelhança entre as peças e por um motivo bem mais óbvio: as etiquetas são as mesmas usadas na Renner com a diferença de que o símbolo da Renner é cortado fora, tipo manualmente mesmo!

Tá, vamos fazer uma pausa e explicar aos leitores RHYCOS do blog que só frequetam a Dior o que é a Renner e o que é a Blue Steel. Você, pobretão como eu, se estiver sem paciência ou tempo, pode pular toda a parte em cinza.

A Renner é a segunda maior magazine do Brasil, com faturamento girando em torno de R$ 2,8 bi. Perde apenas para a C&A, com faturamento estimado de R$ 3,1 bi. Sua estratégia, de acordo com o próprio site é “oferecer aos consumidores itens fashion e de alta qualidade a um preço competitivo, provendo um serviço único de roupas e acessórios, de acordo com estilos de vida diferentes”. De uma forma geral, o target das lojas são as mulheres de 18 a 39 anos, de classe média a alta e que gostam de ter certa autonomia em suas decisões de compra.

Essa questão de oferecer serviços específicos para cada estilo de vida é o que a Renner diz que tem de mais diferenciado (para mim, a C&A também faz exatamente isso, mas ok). A Renner possui as seguintes marcas para os seguintes estilos de vida:

  • Marfino: estilo casual feminino e masculino
  • Just Be: estilo fashion feminino
  • Request: estilo contemporâneo feminino e masculino
  • Cortelle: estilo neo-tradicional feminino
  • Blue Steel: estilo jovem feminino e masculino

O site da Renner não fala, mas lembrei de outras também (sim, eu frequento muito a Renner e decorei quase todas as suas marcas):

  • Get Over: estilo vou-na-academia
  • Rip Coast: estilo queria-ir-a-uma-loja-de surf-mas-vou-entrar-aqui-mesmo
  • A: eu definiria como estilo jovem-senhora-quero-parecer-que-sou-rhyca-e-que-tenho-um-iate
  • Maternity: estilo tô-grávida

Como outras magazines, a Renner também tem como produtos cartões de crédito e empréstimo pessoais.

No site de relacionamento com investidores da Renner há o anúncio de inauguração da loja: e ainda é possível que mais duas sejam inauguradas ainda esse ano!

relatório financeiro de 2010 também publicou uma nota, que acho que explica o porque de dar uma loja todinha para uma submarca:

Over the next few years, Lojas Renner intends to maintain its strategy based on its growth pillars, the focus being on the expansion in the number of store rollouts – expected to reach 33 units in 2011 – and on the new store formats, including test runs for specialty store operations.

Vemos que a Blue Steel do Shopping Boulevard é muito provavelmente um destes testes de operações em lojas especializadas. Tendo a achar que a ação foi uma saída muito interessante. Digo isso porque tem muita gente que não é fã de grandes magazines e uma loja separada talvez isso possa desassociar alguns valores convenientes da marca-mãe. Acredito que em alguma localidades, ainda, há uma presença muito mais marcante de alguns público-alvos que outros e neste caso, uma operação inteira da Renner pode ser não vantajosa.

Não sei. Tudo o que sei é que essa ação da Renner está bem silenciosa, não? Alguém quer opinar?

Eudora

Essa semana a linha Eudora do Grupo Boticário foi lançada para vendas diretas através de revendedoras, internet e lojas em alguns pontos estratégicos (é… se são estratégicos a gente discute mais tarde).

Eu particularmente adoro cosméticos e o meu lado feminino ficou tipo assim…

Mas o meu lado de profissional de marketing quis refletir um pouco. Será que essa história dá pé?

Pesquisando um pouco sobre o mercado, observei que as vendas diretas tiveram um aumento de 17,2% em 2010, totalizando um significativo volume de negócios de R$ 26 bilhões. Dá mesmo para perceber que as marcas têm investido bastante em sua imagem e vemos aqui e ali sinais de empresas novas ou que não eram tão difundidas no Brasil (alô Jequiti, Racco e Mary Kay).

O setor de cosméticos, nem se fala. Pouco afetado pela crise de 2009, vem revelando altas taxas de crescimento acima da indústria em geral desde 2003. O Brasil é, ainda, o terceiro principal mercado mundial para produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, estando na frente de China e atrás de Estados Unidos e Japão.

O Grupo Boticário aproveitou o cenário favorável e lançou a linha Eudora (confere lá), segundo a PEGN, para mulheres a partir dos 25 anos, de todas as classes sociais. Por causa disso a variação de preços entre os produtos é grande, o batom Soul, por exemplo, é baratinho e custa cerca de 10 reais. Já algumas fragrâncias passam de 100 reais. Eu, particularmente, achei o itens baratos, mais acesíveis e simples que os d’O Boticário.

Outro item para se observar da nova marca é o esquema de distribuição e vendas. Foram inauguradas duas lojas até agora– uma no shopping Morumbi e outra no Paulista. Também é possível comprar pelo site e, em breve, pode ter uma revendedora Eudora batendo na sua porta, cuidado!

Olha, não gostei dessa história de produzir para todo mundo, não. Padim Kotler ensinou a segmentar e posicionar para alguns, não para todos. Padim Porter ensinou que, se for para vender para a massa, a vantagem estratégica deve ser liderança em custo ou diferenciação do produto. Será que dá para encaixar a Eudora em algumas dessas estratégias competitivas genéricas?

Admiro e apoio a iniciativa de entrar em um mercado que é tão pulverizado como os de cosméticos e que, no quesito vendas diretas, é dominado há muito tempo por uma gigante como a Avon. Só que a minha intuição diz que loja física, ainda mais no shopping Morumbi, não combina com revendedoras nem com batom de 10 reais.

Eles devem saber o que fazem. Irmãos, marketemos.

Glamour para as massas

Há algumas semanas, houve um burburinho geral na blogosfera especializada em moda. Por diversos motivos, teve quem amou e quem detestou a coleção da Stella Mccartney para a C&A.

Avisos aos desavisados: Stella é filha do famoso cantor inglês com o mesmo sobrenome, e referência no quesito moda atual. Preocupadíssima com a qualidade dos materiais de suas roupas, e também com a sua procedência (seguindo a onda natureba), Stella produz peças ditas “elegantes e atemporais”. E caras. Sim, como marca posicionada em luxo, não é de se espantar que os preços sejam bem compatíveis com o público (confere aí).

Pois bem. Eis que no final de março, a parceria com a C&A gerou controvérsias também entre os profissionais de marketing. A campanha era linda e bastante cativante para o público feminino. As peças eram diferenciadas e com um preço meio salgado para os padrões C&A de qualidade.

Se posicionamento é o espaço que marcas ocupam na mente do consumidor, podemos dizer que o posicionamento da C&A mudou bastante durante os últimos anos. Há muito tempo a figura do Sebastian deixou de estar associada à loja. Em 2006, a marca sofreu um enorme impulso em seu volume de vendas ao adotar Gisele Bündchen como garota propaganda em uma de suas campanhas. Desde então, diversos ícones internacionais que influenciam o jeito feminino de se vestir (ou ser) marcaram presença nas comunicações e coleções: Fergie, Beyoncé, Nicole Scherzinger, Cristina Aguilera (nhém) e tops como Isabeli Fontana, Raica Oliveira e a própria Gisele. As parcerias com grandes estilistas também não são novidade:  já passaram por lá Isabela Capeto,  Amir Slama, Renato Kherlakian e Hercovithc.

Será que todo esse glamour combina com a C&A? Será que a loja que, além de roupas com qualidade média, vende seguro e crédito pessoal tem a ver com o luxo de grandes estilistas?

A verdade é que a C&A tem se posicionado como ímpar, diferenciada mesmo que entre as grandes magazines. Adotou com afinco a questão do fast fashion, com coleções compactas, de alta rotatividade e acompanhadas de muito burburinho, diga-se de passagem. Resultado? O faturamento ó…

Faturamento das Grandes Magazines no Brasil. Fonte: Relatório Institucional Renner

Acho que convidar Stella Mccartney está bastante alinhado a ações estratégias anteriores da marca. Além do mais, entre a ralé e o crème de la crème, tem muita gente sim que quer uma Stella pra chamar de sua. E inclusive pagar um pouco a mais por isso.